ARQUIVO HISTÓRICO DO MUNICÍPIO DE ITAPORANGA D'AJUDA - CURADORIA: PROFESSOR ROBSON MISTERSILVA
ARQUIVO HISTÓRICO DO MUNICÍPIO DE ITAPORANGA D'AJUDA - CURADORIA: PROFESSOR ROBSON MISTERSILVA
CACIQUE SURUBI (DESCONHECIDO - 1575)
Ele foi o primeiro líder da resistência à ocupação dos portugueses em solo itaporanguense. Temido por sua valentia e crueldade. Conhecido em todo o território sergipano por suas ações de combate às ilegalidades promovidas pelos estrangeiros portugueses em nossa região. Lutou e morreu defendendo o seu povo.
1. Surubi, o grande guerreiro
Não se sabe ao certo quando nasceu Surubi, nem quando começou a liderar os indígenas abaüs tupinambás. Sabe-se, contudo, que essa liderança já ocorria em 1556, quando ocorreu o episódio que ficou conhecido como “Tragédia do Bispo Sardinha”.
De acordo com Amâncio Cardoso, na obra Sergipe: história, cultura e patrimônio (2026), “os avanços beligerantes dirigidos pelos lusos-baianos, e aliados, contra aldeias além do rio Real, promoveram intenso etnocídio”. (p.13) Em resposta, os indígenas Caetés promoveram, em 1556, uma chacina, que vitimou “uma centena de portugueses da elite do reino, entre eles o primeiro bispo do Brasil, Dom Pero Fernandes Sardinha (c. 1496-1556) e o primeiro Provedor-mor da Fazenda, Antônio Cardoso de Barros, pai de Cristóvão de Barros, futuro conquistador militar de Sergipe.” (p. 14)
Após, o conflito, “os portugueses passaram a submeter todas as populações indígenas que habitavam entre Salvador e Olinda, com justificativa de ‘guerra-justa’”. (p.15)
Em 1562, aproveitando-se de uma grande epidemia de febre e varíola que acometeu sobre algumas aldeias indígenas localizadas no Nordeste brasileiro, os portugueses invadiram as aldeias e escravizaram os nativos adoentados.
Em 1568, os indígenas escravizados se rebelaram e fugiram durante a Semana Santa. Na fuga, mataram alguns portugueses e colocando fogo em fazendas. Segundo Amâncio Cardoso, “dentre os fugitivos estava Surubi, líder das aldeias próximas ao rio Irapiranga (Vaza-Barris). Desse episódio retiramos a data de sua liderança aos nossos indígenas desde pelo menos o ano de 1562, quando houve a sua captura.
Após a fuga de 1568, surubi retorna ao posto de líder dos abaüs tupinambás em terras em que hoje são parte do território de Itaporanga.
2. O relato do padre Inácio de Toloza
De acordo com a Carta de Toloza, a aldeia de Surubi foi a segunda aldeia visitada pelo padre jesuíta Gaspar de Lourenço. Ela ficava mais perto do Rio Vaza-Barris, distante “a dez ou doze léguas de S. Thomé, por mui ruim caminho”.
Esta aldeia era situada, ainda segundo a Carta, na “perigosa” região dominada pelo cacique Surubi.
Segundo Toloza, Surubi fez ao padre o convite para ir até a sua aldeia. Este convite não foi aceito à princípio, por causa da fama do cacique. Porém, acabou que o Padre Gaspar de Lourenço se dirigiu até a aldeia do Vaza-Barris.
O relato do Padre Toloza afirma que o padre e sua comitiva foram bem recebidos por Surubi, embora o cacique tenha ficado por um bom tempo deitado em sua rede sem sair calado “sem falar-lhes uma só palavra”.
Porém, após breve “chá de cadeira”, Surubi recebe os padres, oferecendo-lhes quatro espigas de milhos para comer. Fizeram então, longa pregação e os nativos dizem que se alegravam muito com a vinda do padre e que queriam igreja. Fez-se, com isso, a construção de uma igrejinha de madeira e palha dedicada a Santo Inácio. É registrado ainda, na Carta, que a aldeia de Santo Inácio atenderia a “mil almas” que ali se encontravam. Enquanto a igreja não ficava pronta, o ensino se fazia na casa onde o religioso ficaria quando não estivesse visitando outras aldeias.
Se por um lado, o medo do padre sumira, pois os nativos aceitaram de bom grado a ação de catequese, por outro, os soldados da comitiva que vieram para proteger o religioso passaram a praticar ações mal vistas pelos moradores do lugar: roubava produtos das roças dos índios e raptavam mulheres nativas.
Causadores dos problemas, os colonos instigavam o governo relatando problemas, o que não condizia com os relatos de sucesso dos padres jesuítas.
3. A Morte de Surubi
Nessa época, os campos além do Rio Real passaram a ser muito importantes para a expansão dos rebanhos de gado, aguçando o interesse dos senhores do Recôncavo pela região.
Em 25 de novembro de 1575, o Governador do Norte do Brasil, Luís de Brito, seguiu para a região do Rio Real, acompanhado por portugueses e escravos. Passou na aldeia de São Tomé, onde no dia 21 de dezembro participou de festa e no dia seguinte partiu para a Aldeia de Santo Inácio, apesar dos alertas da Companhia de Jesus de que a presença dos homens armados do governador poderia conquistar a ira dos nativos.
As ações de Luís de Brito tinham por objetivo acelerar a conquista do território de Sergipe D’el Rei. As ações do jesuítas, porém, tinham além do objetivo religioso, fazer a mesma coisa, porém de forma pacífica. Luís de Brito, por outro lado, optou pelo uso da força. O que acabou prejudicando o projeto de ocupação das terras sergipanas. Os nativos passaram a desconfiar não só das intenções dos colonos e dos soldados, mas também das intenções dos padres jesuítas. Os nativos, então, se prepararam para o conflito.
Nesse ponto da história, os relatos do Padre José de Anchieta nos servem para entender como se deu essa guerra entre o Governador Luís de Brito e os nativos liderados por Surubi. De acordo com Anchieta, Surubi ao saber da ida do governador para suas terras, se preparou para o combate, onde perderia sua vida: “sentido ele que os Portuguêses iam em sua busca, fez uma cerca de ramos, que eles costumam fazer, quando andam por terras de contrários: houve alguma escaramuça de flechas, e ali foi morto por desastre o Curubi com pelouro de uma espingarda” (Anchieta, p. 45).
O saldo da guerra foi a fuga de muitos nativos, a morte de outros, entre as quais, como seu viu, a morte de Surubi, a queima da capela de Santo Inácio e o fim, por hora, do projeto catequético nas terras dos abaüs tupinambás.
Apesar da vitória contas os indígenas, essa primeira tentativa de colonização não obteve sucesso. Os nativos que haviam fugido, logo retornaram para suas terras e o ataque aos portugueses voltou a ocorrer, sendo este mais um pretexto para novas retaliações do governo português.
Representação do líder indígena Surubi
D. Pero Fernandes Sardinha
Santo Inácio, a primeira “igreja” jesuítica fundada em terras itaporanguenses – na Aldeia do Cacique Surubi - foi dedicada a ele.
Representação da ação jesuítica em terras de Itaporanga.